Vasculhando meus guardados, não por acaso, deparei-me com uma foto do jogador francês Zidane, numa matéria de jornal sobre a Copa de 2006, quando ele, ofendido pelos impropérios racistas de um jogador italiano, em pleno campo, deu-lhe uma cabeçada no peito, atitude que implicou sua expulsão do jogo, no segundo tempo da prorrogação.
Zidane é descendente de argelinos berberes, povo que durante a dominação francesa, tornou-se guerrilheiro, e que hoje mantém sua tradição por meio da preservação lingüística.
Em 1977, vivi no teatro uma sacerdotisa berbere argelina, na peça Simun, de Strindberg. Os berberes eram nômades que moravam nas montanhas. Pintavam a cara com uma enzima azul, para se protegerem do vento Siroco – por isso eram chamados de “homens azuis”. Desde este trabalho – um dos primeiros do Ornitorrinco -, senti uma forte ligação com a cultura argelina, identificando-me com alguns aspectos diferenciais dos berberes em relação ao resto do povo árabe: dentre eles, a não-discriminação da mulher (as mulheres berberes são ‘companheiras’ dos homens, e dispensam o uso da burca), bem como pela cultura que é transmitida essencialmente pela oralidade, atravessando séculos de tradição e costumes preservados em festas. Nove anos depois trabalhei o texto Eu Não, de Becket, monólogo escrito na Argélia, inspirado na imagem de uma argelina velha acocorada, muda atrás de sua burca, que subitamente pudesse jorrar palavras há muito tempo sufocadas (metáfora da própria Argélia massacrada pela colonização francesa).
Mas por que a lembrança de Zidane me traz todas estas conexões? Ora, sabemos que todo mundo se curvaria ao espetáculo, na situação cômoda em que o jogador se encontrava, em pleno auge de sua carreira, pronto para protagonizar sua retirada apoteótica.
Mas Zidane não se subjugou ao espetáculo globalizado.
Não titubeou: deixou o búfalo entrar em campo. Sua essência foi dignificada.
Zidane, belo homem azul, receba um tapa da Pantera.






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