Crônica 1

Maria Alice Vergueiro e Lucci ChiroliO que é que eu gostaria de falar? Bem, acho que isso deve parecer uma crônica, um espaço pro meu pensamento livre, um olhar sobre o que, agora, estou vivendo…

Estou vivendo uma novidade, ainda perplexa, num meio de comunicação constante, mutável e mutante. Inda ontem me disseram: você esta fazendo um sucesso grande no Youtube. E eu nem tinha computador. Hoje, agora pouco, eu disse ao telefone: estou ocupada trabalhando, escrevendo prum blog da Abril. “Ahhh bom, agora eu entendi!!!” Espera aí: eu ainda não entendi completamente.

Mas tudo bem. Eu também tinha o direito de ter um espaço por aqui, nesse território livre, onde eu finco minha raiz e depois reclamo uso capião. Mas tem que pagar imposto, ISS, apresentar certidão negativa, quitar Sbat, Ecad, dar nota fiscal?  Fala-se de direito nessas terras virtuais? In-ter-net (é assim que se pronuncia).

Olho à minha frente e vejo uma tela branca, de computador, onde de repente tudo é possível…Posso cantar? eu pergunto pro flindas (o Heron Coelho), que tá digitando minhas palavras. E ele diz: “pode, claro”. Mas, espera: precisamos de um microfone de webcam. O que? eu pergunto.

Acabei de gravar um disco. Na verdade, acabei de gravar 16 canções de Brecht, que ainda não virou disco, por conta das dificuldades comuns nesse meio: direitos autorais e grana pra pagar a tiragem. Cantei essas canções por mais de três décadas, textos de Brecht com música de Weill, Eisler (pra lá de 1930…), e versões dos meus amigos Luiz Roberto Galízia, Tatiana Belinky, a Catherine Hirsh, o Cacá Rosset.

E só agora, no século XXI, tive a chance de entrar num estúdio e gravar o que eu queria, e do jeito que queria. Mas, e os direitos? Como ficam os direitos autorais? O Brecht deixou algum netinho por aí? Será que o telefone vai tocar, de repente, e alguém vai dizer: “O Dona Marialice, a senhora não pode cantar esse negócio aí não, inda mais sem pagar direito. Teje Presa!!!”. Mas como, já está tudo pronto? Será que eu posso gravar ao menos numa fitinha, um cedezinho pirata, e dar escondido prum amigo ouvir em casa? Ninguém vai saber, vai ser tudo às escuras, obtuso, obsceno, coisa de bastidor…ah, deixa, vai, por favor, por favor, por favor, senhor DEUS Dará..!!! É… mas e se de repente essa fitinha parar na internet, daí todo mundo vai poder ouvir em casa e copiar pra outros amigos, passar de mão em mão, de ouvido em ouvido, ou seja: um horror…essa orgia, essa promiscuidade, esse “ninguém é de ninguém” é um horror…!

Ahhhhhhh, então é isso…agora eu tô entendo essa tal de internet (será que o Roberto Carlos também tá sabendo?). É irrefreável, incontrolável, irreversível. Colocou na roda, ninguém mais segura. Nessa primeira prosa a gente bem que podia ouvir aquele “lírio do inferno”, do Brecht com o Weil, que  eu já gravei (e canto há quatrocentos anos)… tá prontinha, é só pôr pra rodar…Mas a gente deve ouvir com fone, ou com o volume bem baixinho, pra não dar na vista (mas dar no ouvido!!!), afinal…

A que ponto chegááááámos…

“Ei, Joe, toque aquela velha canção…”

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~ por Maria Alice Vergueiro em 20 junho, 2007.

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