Speak Low: Minhas estripulias musicais

Bertolt BrechtComo todos já sabemos, acabei de gravar algumas canções de Brecht e Weill, para um projeto de CD. Mas, em resistência às barreiras impostas pelo mercado, resolvi soltar as músicas por aí, para o público interessado, e aqui está o conjunto de música, num blog independente, onde todos podem acessar o material, baixar e copiar, assim como podem imprimir a arte CD (capinha, selo, espelho), caso ainda não sejam adeptos do MP3, e gostem do velho e antigo “toca-discos”. Aliás, tudo o que é moderno hoje, amanhã passa a ser antigo num segundo, e de repente eu me pergunto: e eu, assim e de repente tomada pelos rompantes da modernidade tecnológica, surtada entre torpedos, e-mails, escutando meus netos falando pelo skype, e me perguntando: vovó, aqui na sua casa tem “banda larga”? Fiquei perplexa, mas assim como os novos tempos, essa perplexidade deve durar segundos, senão a gente fica antigo também.

Porque a gente aprende sempre e todos os dias. Eu convivo com a moçada do teatro, e agora também com a moçada da música, e sempre aprendendo coisas novas, novos enfoques e modos de olhar a vida. Correr o risco, sempre, desde muito bem acompanhada.

No processo dessas gravações e ensaios do meu CD virtual (cujas canções estou disponibilizando a vocês neste blog), contei com a participação de alguns músicos muito queridos, como os pianistas Osmar Barutti, Demian Pinto e Carlos Blauth , e especialmente com o violonista Alessandro Penezzi, com quem gravei quase todas as músicas, experimentando um Kurt Weil no violão, material inédito pro Alessandro até então, e experiência extremamente nova para mim.

Em nossos encontros, tudo me lembrava muito os antigos saraus que aconteciam em minha casa, eu ainda menina, e meu pai, que também se aventurava como músico, envolto em partituras de valsas que ele mesmo compunha. Com Alessandro, assim como com o violonista Junior Pitta, tive a alegria e a possibilidade de cantar, durante esses encontros, algumas músicas brasileiras que estavam guardadas, há tempo, em minha memória. Chão de estrelas apareceu num dia, no estúdio, durante o aquecimento de voz. “A porta do barraco era sem trinco, e a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão”. E a gente percebia o quanto esses versos eram bonitos, e que a poesia, quando boa, fica atemporal.

Foi aí que o nosso diretor musical, meu amigo Heron Coelho, e produtor do disco, resolveu experimentar algumas referências musicais brasileiras nas canções do Brecht, tendo em vista a proposta de cada música. Por exemplo, para uma canção de Weil chamada A Moça Afogada, tornou-se imprescindível a citação para o Prelúdio para violão nº3 do Villa-Lobos(a introdução da original parecia muito, e tinha tudo a ver), assim como o Speak Low, uma faixa-bônus, que canto há muito tempo, dialogou com o samba-canção violonístico e inovador do Garoto, o Duas Contas.

De todas as minhas estripulias musicais, ao longo desse duzentos anos de carreira, gravar essas músicas, pela primeira vez e oficialmente, foi uma aventura inesquecível, daquelas que ficam tatuadas na memória e na alma por toda a vida. Na ocasião do último dia de estúdio, eu chamei o Rafael Gomes para registrar o encontro, e lembro-me que naquele dia tudo correu com uma força diferente, as músicas fluindo, minha voz e o violão em harmonia, e a sensação de que Brecht estava lá, me vendo, me assistindo, impressão que sempre tive nos trabalhos que fiz sobre sua obra: ele estava lá, na platéia, me olhando.

Estes apontamentos são impressões de uma “velha senhora” que está muito antenada com as novidades que a vida oferece. Lembro-me que o Brecht perguntava: “em tempos sombrios se cantará também?” Também se cantará sobre os tempos sombrios. Então eu canto, esse meu tempo que incessante no relógio e na agenda, anda bem ensolarado e com nenhum sinal de tempestade.

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~ por Maria Alice Vergueiro em 23 junho, 2007.

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