Salve o Prazer!!!

Ao ler o livro A Arte de Ter Prazer, do escritor francês Michel Onfray, pensei muito sobre o direito de se ter prazer, e a culpa que ele sempre traz quando vivenciado. Desde criança, a visão do mundo que nos é passado, a partir de uma moral judaica-cristã, é de que o prazer é uma irresponsabilidade, leviandade, lassidão, a visão de que uma coisa é se divertir, e a outra é trabalhar. Sempre que se está leve, disponível, surge uma voz que diz: “caia na real”. Ou então, “tem tanta gente sofrendo, passando fome…como é que você pode comer esse bombom…”

Lembro-me de, nas férias de infância, os primos se encontrarem na fazenda, na cachoeira, e todos levantávamos cedo para tomar leite ao pé da vaca, soltos no mato, pelados tomando banho na cachoeira. As meninas curiosas por aquelas coisas dependuradas que os meninos tinham…enfim, felizes e satisfeitos, reciprocamente se conhecendo. Chegava a hora do bolo de fubá e do café com leite; na mesa aquela cumplicidade, aqueles risinhos, a expressão de um estado latente de integração dos primos entre si, tempo de descobertas… E a avó, com aquela cara de ódio, vendo no prazer a manifestação do pecado, gritava com a mão em riste: “vai riinnndo…vai riinnndo”. E pronto: instalava-se na turma o constrangimento. E a gente caia na real. Cair na real! O prazer autêntico era sacrificado no altar do real.

Ao saírem da mesa, as crianças já se olhavam com certo estranhamento. A guilhotina se instalava, e aquela alegria espontânea tornava-se inoportuna, era vista como leviana, não era “séria”. Sentenciava-se o medo de ter prazer. E reforçava-se a noção de que esse prazer era uma força contrária à ordem da realidade, aqui corporificada pela voz punitiva da avó.

As palavras do Michel ressoam, nesse momento:

“Teu corpo pertence a ti, só a ti; só tu no mundo tens o direito de desfrutar dele e de deixar desfrutar dele quem bem entenderes. Aproveite o tempo mais feliz de sua vida. São muito curtos esses anos felizes de nossos prazeres.”

Éramos rebaixados a uma condição animal, dentro da mentalidade cristã, e nosso desejo passava a ser uma doença, uma contaminação, no qual o contágio era o maior perigo. Hoje, eu, que também sou avó, não vejo essa discrepância como um problema de geração, mas sim de formação, e que tem se arrastado por todas as décadas, sob outras máscaras e outros rótulos.

Creio que quando levamos uma vida em que nosso pensamento reflete-se na ação, não nos tornamos uma pessoa tirânica, mas sim vivemos harmoniosamente conosco e com o outro – vivemos e deixamos viver. É claro, o pensamento de minha avó, assim como de tantas outras pessoas, talvez fosse exatamente aquilo que ela pregava e vivia. A barbárie dura séculos, e parece que seja ela o nosso único elemento, já dizia o filósofo. Mas eu pergunto: a avó era feliz? Ela se dava o direito de ter prazer?

Então eu faço o convite à avó chata e castradora: de que venha à cachoeira, e conosco brinque e ria, ria muito, como nunca, e talvez descubra, com aquela cumplicidade afetiva de tempos em que se tem pai e mãe, coisas que até então não tivera chance de conhecer.

Um beijo, netinhos…

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~ por Maria Alice Vergueiro em 24 junho, 2007.

3 Respostas to “Salve o Prazer!!!”

  1. Adorei o blog!!!
    É o teatro, lindinha!!
    Beijocas estaladas!!!
    Cacá Rosset

  2. Cacá, lindinho…
    beijos
    Maria Alice

  3. Uau! Que post maravilhoso! Um beijao de um grande fa portuges! PS qual o email para onde posso enviar um texto mais privado?
    Joao

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