Jenny:a dos Piratas, Geni: a do Zepelim, Grace: a do Dogville

Nos meus quase cinqüenta anos de carreira, apresentei algumas peças e musicais sobre a obra do mestre Bertold Brecht, debruçando-me em seus textos, suas músicas, e em sua grande seara de tipos e personagens, dentre as quais algumas incorporei em meu repertório e em pesquisas.

Existe um protótipo recorrente na obra brechtiana, presente em peças como Mãe Coragem, Ópera dos Três Vinténs, A Velha Dama Indigna, Baall: trata-se de uma personagem, às vezes jovem e ingênua, e dotada de uma sabedoria tácita e instintiva. São personagens diferenciados, que mantém uma pureza, essência inconspurcável, não proveniente de uma resistência racional ou política (podendo, sim, redundar nisso), mas sim oriunda da alma, intrínseca à sua natureza. Essas personagens já nascem com uma compaixão, com uma certa compreensão de mundo, mesmo sem consciência clara disso, ligadas muito mais ao self que ao ego. Sinalizam, nessa condição, um outro parâmetro das possibilidades humana.

Geralmente, essas personagens são ridicularizadas, vistas como subnormais, e todos riem delas porque “sonham de olhos abertos”. Assim Jenny dos Piratas lavava copos num mísero e imundo bar, à beira do cais, freqüentado por mendigos, cafetões e putas. Um dia ela cantou essa música:

Meus senhores hoje eu lavo copos
Faço as camas de todo mundo
Me atiram um micho tostão e eu logo agradeço,
Limpo a mão no avental mas eu sei:
Que um dia eu vou sair daqui. (BIS)

Certa noite um grito vai se ouvir
E vocês vão perguntar: “Quem foi que gritou no cais?”
Vão me ver lavando os copos e sorrindo.
Vão perguntar: “Por que é que ela sorri?”

Um navio de piratas
Com cinqüenta canhões
Aporta no cais.

Vocês vão me dizer, lave os copos menina,
E um tostão vão me atirar;
Vou guardar o dinheiro, suas camas arrumar, mas eu sei
Que nelas ninguém nunca mais vai se deitar
Só eu sei o que vai se passar (BIS)

Nesta noite um estrondo vai se ouvir
e vocês vão perguntar: “O que aconteceu no cais?”
Da janela estarei tudo espiando
Vão perguntar:”O que faz ela ali?”

Um navio de piratas
Com cinqüenta canhões
Tudo vai bombardear

A alegria de suas caras vai desaparecer
Porque tudo irá pelos ares
E quando a cidade estiver toda arrasada,
Restará de pé apenas este mísero hotel
“Quem será que da tragédia escapou?” (BIS)

E durante a noite vão berrar,
Perguntando sem parar: “Quem será que vive ali?”
De manhã, então, eu abrirei a porta.
Vão perguntar: “Quem é esta mulher?”

Um navio de piratas
Com cinqüenta canhões
As velas enfunará

No final da manhã, cem piratas desembarcam
Em silêncio vão avançando
E um por um de vocês eles vão acorrentar
E aos meus pés atirar, para depois me perguntar:
“Quem é que você quer que matemos?” (BIS)

Haverá silêncio em todo o cais,
Quando ele me perguntar:”Quem é que deve morrer?”
Minha voz então será ouvida: TODOS!
E quando as cabeças rolarem eu direi: Oba!

Um navio de piratas
Com cinqüenta canhões
Pra bem longe vai me levar

De A Ópera dos Três Vinténs, essa canção é cantada pela personagem Polly, no dia de seu casamento, às escondidas dos pais, com Mac Navalha. Num determinado momento, no covil dos ladrões onde comemoram secretamente a festa do casamento, Polly apanha um pano de chão, amarra na cintura e diz: “faz de conta que este pano é o pano que a Jenny usava para enxugar os copos”. E começa a cantar, fazendo uso do conhecido recurso estético do “distanciamento”. Quando Polly canta a canção de Jenny, apresentando sua história através da música, já se estabelece de imediato a quebra da identificação romântica com a personagem, e traz dialeticamente uma abordagem social ao espectador: Jenny aparece metaforizada pelo pano sujo que Polly veste ao começar a cantar sua história.

Participei da montagem desta peça, na inauguração do teatro Ruth Escobar, no final de 64 e início de 65. Treze anos depois, participei também da montagem carioca da Ópera do Malandro, de Chico Buarque, na qual a personagem da Jenny dos Piratas, de Brecht, aparece adaptada na versão de Geni, aquela do Zepelim, e que todos cantam hoje, sucesso que se tornou naquela época.

O eu lírico de Chico parece ter um certo dó, um sentimento de piedade pelo feminino. A mulher se afigura como vítima, e desdobra o rosário de sua condição, como acontece com Geni, a do Zepelim. Esta salva a cidade de uma explosão, e é condenada à levar “bosta” da sociedade após seu ato heróico. Torna-se o cordeiro imolado, numa visão significativamente cristã. Passa a ser um mal necessário, porque sua condição é imutável, uma força centrípeta. Jenny, a dos piratas, é um lobo, impiedosa, que quando perguntada: “quem deve morrer?” responde “TODOS”, eliminando “o mal pela raiz”.

Na verdade, tratam-se de abordagens e visões de mundo totalmente diferentes.

A mesma pergunta dos piratas feita à Jenny – “Quem é que deve morrer?” – também ocorre à Grace, aquela do Dogville, filme conhecido do diretor Lars Von Trier, que assumidamente inspirou-se na personagem de Brecht para a realização de seu filme.

Cena do filme Dogville

Grace, neste caso, não canta a música, mas assume o papel de Polly (que na peça de Brecht também é filha de “mafiosos” – cada qual ao seu modo), que tentou ser Jenny, e viu que não dava. Após a experiência tortuosa no vilarejo no qual se instala – no começo recebida como “santa”, e no fim seviciada por todos  (neste caso, lembra também a Geni do Chico) -, Grace tem um estalo e percebe que a única saída é atacar o mal pela raiz. Volta a ser bandida, e todo o vilarejo é metralhado.

– Quem é que você quer que morra, Jenny?
-Todos…E quando as cabeças rolarem eu direi: oba!

Grace ainda arrisca um pedido: “Mate os filhos na frente da mãe!”.

Trier consegue criar um roteiro e uma dramaturgia relevantes, trabalhando as idéias de Brecht, e com Brecht, a quatro mãos.

Para vocês, leitores, hoje mando e dedico a Jenny dos Piratas, nessa versão de meu querido Luiz Roberto Galizia, gravação ainda inédita, que contou com a participação do Alessandro Penezzi ao violão.

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~ por Maria Alice Vergueiro em 26 junho, 2007.

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