Caí na vida aos setenta

Em minha primeira crônica-prosa-conversa-afiada, aqui no blog, escrevi sobre meu espanto em relação à internet, e sobre como ainda tudo é novo para mim – a linguagem, as ferramentas, esse espaço infinito e permissivo onde tudo é possível, terra sem lei e ao deus dará…Encerrei com o Lírio do Inferno, canção do Brecht e do Weil, no qual a personagem sentencia: “o amanhã que se foda!”. Mesmo porque todos batem as botas amanhã, e sei que o meu futuro está acontecendo, neste exato momento.

E pensei, nestes últimos dias, sobre o “sucesso” nesses campos virtuais, no caso do YouTube especialmente, onde o Tapa na Pantera teve grande difusão. Desse acontecimento recente, lembro-me bem do telefone tocando sem parar, uma quantidade de produtores me ligando, me propondo uma continuidade da Pantera, agora no teatro, e que seria um sucesso na certa. Me senti como uma atriz que acabou de ser lançada, e percebi que a moçada, em grande parte, estava me descobrindo.

http://flickr.com/photos/kodaking/532419795/E descobriram a Maria Alice travestida de pantera. Dei entrevistas, participei de programas de televisão e da internet, fui na onda, e até de “mamãe noel” me chamaram, depois de uma aparição na boate A Lôca. Os “netinhos” da pantera se reproduziam dia a dia, e se agregaram aos filhos da “velha dama indigna”, essa que agora, septuagenária, se aventura como blogueira no século XXI.

Até, confesso, fiquei entusiasmada. E pensei: por que não, agora, ser conhecida universalmente? Já me via com os adolescentes aos meus pés, todos com seus cachimbinhos de sacis, e eu contando as histórias que a vovó não contava, porque é “perigooossooo”.

O que são estes espaços, para mim, se não importantes vasos comunicantes? O que me chamou a atenção, neste processo, foi o fato de pessoas acharem o “texto” da Pantera muito interessante.

Eles talvez não imaginavam que este texto tratava-se de um improviso da atriz, agora miscigenada com a personagem, e por sinal muito brechtiana, porque o Brecht invoca que você seja você através da personagem, e vice-versa. Daí a escolha das personagens. O ator não é mais apenas um intérprete: ele á autor, diretor também… Muitas vezes me perguntavam se aquilo era um depoimento de uma velha louca, ou se era uma encenação, até hoje levantam este assunto em bate-papos e comunidades do Orkut, e acho isso tudo muito interessante.

E sobre o sucesso, faço minha a pergunta do Thomas Bernard. É possível o artista ter sucesso sem perder a dignidade? Creio que sim. Porque eu vejo a dignidade como a nossa conivência com aquilo que realmente acreditamos, sem hipocrisia. Pode haver um sucesso se você não empenhar seu bem-estar e a sua alegria.

Tudo, para mim, é sempre um começo. Começar todos os dias, me sentir iniciando, estar no percurso, em movimento, isso é o que mais me importa no momento. Aos setenta anos me sinto mais jovem, porque agora eu corro o risco. “Ó delícia de começar…”

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~ por Maria Alice Vergueiro em 27 junho, 2007.

9 Respostas to “Caí na vida aos setenta”

  1. Parabéns !!! Viva sempre como se este fosse o seu ultimo dia por aki e APRENDA como se fosse viver fisicamente entre nós uma eternidade.

  2. Ah…quero chegar aos setenta passeando sobre solo lunar… nem que seja depois de um baseadinho…rs
    Parabéns, minha jovem Alice. Essa tua toca tem coelho e história!

  3. “porque o Brecht invoca que você seja você através da personagem, e vice-versa” eu já exercito isso sem saber, que um gênio pregava tal conceito, uma mortal amiga em uma fase minha de depressão, me indicou como rémedio escrever, escrever uma peronagem e viver ela, ou ela me viver ou até mesmo ela ser na real o meu inreal. Assim nasceu Ileonam que virou Annackell.

    bjs e boa sorte

  4. Vou viver como se fosse o último pulsar!!!”O amanhã que se foda”
    Adorei o blog.
    Parabéns e abraços carinhosos.

  5. Azael: obrigado pela presença e atenção.

    Aila: E eu quero chegar aos noventa com pessoas alegres como você ao meu lado…

    Manoeli: Que bom…o mestre Brecht está em seu trabalho. Leia bastante seus textos…

    Eder: cante comigo – “o amanhã que se foooooddaaaaa!!!!”

    Beijos em todos

    Maria Alice

  6. […] que estudei recentemente). Mas a minha surpresa maior foi descobrir que era o blog da Maria Alice, atriz que já tem uma boa kilometragem mas só agora vem aparecendo na “velha grande mídia“, graças ao […]

  7. oi maria alice! sou seu fã ! Tenho um site sobre novidades tecnológicas e gostaria de colocar seu site em meu Blogroll, gostaria de realizar troca de links ? http://www.hitechlive.com.br

  8. Texto sublime, Maria Alice.
    “Aos setenta anos me sinto mais jovem, porque agora eu corro o risco” é simplesemente perfeito.
    bj
    Pati

  9. Maria Alice, teu blog é um astral só. Por aqui, parece que ouço tua voz o tempo todo. Demais!! beijos de seu fã Guy

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