Meu amigo Luiz Roberto Galizia

Galizia e eu

PARA LER OUVINDO A CANÇÃO DA BRISA

[odeo=http://www.odeo.com/audio/14338623/view]

Saíamos juntos, almoçávamos, conversávamos sobre teatro, sobre a vida.

Falo de meu querido Galizia, ator e diretor teatral paulistano, autor de algumas dessas versões de Brecht que gravei, artista talentoso com quem convivi alguns anos de nossas vidas…

Nosso primeiro trabalho foi numa peça do dramaturgo polonês Stanislaw Witkiewicz, chamada Delírio Tropical, com direção de Emílio di Biase. Estávamos em 1977 – exatos trinta anos –, eu fazia o papel da mãe, ele do filho: e arrancávamos gargalhadas da platéia.

A partir daí andávamos juntos, ele e eu, e alguns nos classificavam como “um estranho casal”. Às avessas, trançávamos as pernas nessa Paulicéia da qual ele gostava tanto. E eu também…

Nesse mesmo ano de nosso primeiro encontro profissional – eu já o conhecia da faculdade, mas sem proximidade –, fundamos o Ornitorrinco, com Cacá Rosset, e a partir daí seguiram outros trabalhos, intensos processos de pesquisa, ele Galízia um estudioso contumaz.

Montamos “Os mais fortes”, sobre a obra de August Strindberg, e em seguida o Ornitorrinco Canta Brecht e Weill, saindo do antigo porão do Oficina para outros espaços, já oficialmente como um grupo de teatro.

Em seguida fizemos Pequeno Mahagonny, de Brecht, e Galízia cantando bonito, bonito…saudades…

Tempos depois ele saiu do Ornitorrinco, nos perdemos de vista até 84, pois avançava seus trabalhos de pesquisa teatral e teses, ao mesmo tempo que se dedicava também à publicidade. Ainda fizemos, no começo da década de 80, A Pororoca, com minha querida Magali Biff, para o Festival Latino-americano de Teatro, em N. York.

Seus trabalhos deram mote para a tese do Luiz Fernando Ramos – Galizia: uma poética radical no teatro brasileiro – , um belo estudo acadêmico, repleto de informações importantes para que faz teatro.

Pouco depois ele nos deixava, prematuramente, e no peito uma sensação de que poderia, sim, ter continuado mais tempo ao nosso lado. Lembro-me de Catherine Hirsh, Denise Stoklos e eu percorrendo o corredor do Emílio Ribas no dia de sua partida.

Chovia.

Chovíamos todos por dentro.

Incentivador, Galízia revelou-me coisas que eu mesma não conhecia, sobre mim, sobre minha essência: por exemplo, ser atriz.

Eu, que havia desenvolvido uma extroversão cênica, especialmente pela minha experiência com Zé Celso, de repente atentei para um gestual mais perspicaz, gestos menores, além de um senso de humor brechtiano irônico que muito tinha a ver comigo.

Galízia despertou isso em mim.

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~ por Maria Alice Vergueiro em 14 julho, 2007.

13 Respostas to “Meu amigo Luiz Roberto Galizia”

  1. Belo e saudoso texto. Dá até saudade de um tempo que eu não vivi.

  2. Que legal encontrar esse blog!

    Sabe, eu admiro pessoas que têm tanto talento artístico! Cantar, escrever, interpretar, é bastante coisa pra uma pessoa só! Parabéns, Maria Alice, você tem aqui um fã!

    Vou recomendar o blog para meus amigos e virei visitar sempre.

    ^^

  3. RAINHA MARY HÉLICE ……. vorazcidade éterna menina olhos de caleidoscópio ……. ilumeninando galizias galizias ……. diz tanto distante o ouço no osso ……. que a rubrica urine a mais pura seiva coagulada no vocabulário de nossas almas ……. sêmen e aliança semelhança ……. se viver é a arte do encontro morrer é a farpa deste estrondo ……. agá agá

  4. “Choviamos todos por dentro.”, frase tão singela e tão profunda em si. Por isto que és uma diva do tablado a ser venerada. Parabéns. Saúde e paz! P.S.: Musa do Canhamo.

  5. OO MARIA ALICE…QUE BELEZA;…
    GALIZIA CONHECI DE RELANCE… UM POUCO SÓ…QDO ENTREI NA ECA EM 1983…
    HOJE SOU UMA …AMEIXA MADURA…E VEJO SEM MEDO DOS VENDAVAIS …QUE SE FODA O AMANHÃ!
    BRECHT….WEILL…AH….QUE BELEZA…QUE BELEZA…
    JÁ FIZ A LÍLIAN HOLIDAY SABE? AQUELA DO HAPPY END?
    VIVE ATÉ HOJE DENTRO DE MIM…
    QUE COISA FEIA É A VIDA SEM ESSA BELEZA…AQUELA….TRAZIDA PELOS LÍRIOS DO INFERNO…
    SE EU VIVER E FOR PRO INFERNO NINGUÉM VAI SE IMPORTAR…
    ENCONTREI O SEU BLOG …GRAÇAS ..AO ..TAPA …NA PANTERA…QUE COISA..:)E O GOOGLE…TANX SANTO GOOGLE!…NÉ?
    CONGRATULATIONS GRANDE DAMA!
    BEJÃO!

  6. Que bom lembrar Galizia! Uma referência para quem gosta de arte. Ele foi um verdadeiro artista.

  7. Olá Alice
    Vi sua interpretação como Mãe Haiága e gostaria de Parabenizá-la pelo belíssimo trabalho, assisti na sexta-feira com uma amiga e me encantei com o espetáculo, aliás assiti na primeira fila. Gostaria de dizer a você e a Beatriz que “fui atingida”, tudo e todos belíssimos.
    Também tenho um Blog:
    http://www.alessandrameduza.weblogger.com.br
    Sua visita será absolutamente uma honra.
    Beijos e uma boa Semana !!!!

  8. Galizia foi primeira paixão, quando fiz um curso de direçõ e intepretação teatral, era um menino, ele abriu as portas do mundo e do meu coração. Lembro da dedicatória do meu exemplar de Vorazcidade, nunca perca o interesse pela arte, eu sempre o obedecerei!

  9. Ei, Maria Alice, que bom te encontrar neste mundo blogueiro. Pena que só a descobri agora, com indicação da Folha. Bom mas isto não importa porque sou talvez o seu mais recatado e desconhecido fâ. Desde os tempos do “O Rei da Vela”. Sou jornalista e vi você pela primeira vez no Rio, no teatro. Nem lembro bem o ano. Moro hoje no Piauí e dirijo o Dep. Jornalismo da afiliada da Globo no Estado, a TV Clube. Sua ida para a Globo, agora, vai me dar grandes alegrias, com certeza. Temos a mesma paixão: Bertold Brecht. E estou feliz em poder acompanhar você com mais intimidade neste blog. Beijão.

  10. La Divina Verchero, Concetta Mangiacavallo, que agarra a vida pelos cornos, a entorta, a enfrenta, a leva para onde quiser…
    Per sempre tuo e também no meu saite http://www.aguaforte.com/carloseugenio

    Carlinhos

  11. Maria Alice
    Só conheci o Galizia de quem você fala nos palcos e na tv, mas fiquei comovida com seu depoimento sobre ele. Devia ser um cara muito bacana, outras pessoas lebram-se dele com o mesmo carinho. Digo mais, esse carisma deve ser um patrimônio da família. Trabalho com o Paulo, irmão dele e de vez em quando almoçamos e conversamos sobre teatro e a vida. Também é gente finíssima e é maravilhoso conviver com ele.
    Abs
    Cris

  12. Maria Alice,
    pois é, mais uma referência ao Google…. Buscando Galizias por esse universo online, encontrei a menção ao seu blog. SOu sobrinha dele, na verdade, ele era meu padrinho. Bom saber que, do que se diz dele, a maioria das coisas é verdade!
    Obrigada pela lembrança tão carinhosa. Eu era muito pequena, mas grande o suficiente para entende o quanto ele tb era grande!

  13. muito lindo, eu conheci o Galizia em Manaus, foi meu professor em um curso de Direção e Interpretação Teatral, eu , então um menino, fiquei completamente apaixonado, foi minha primeira paixão. Eu que morava no cu do mundo, filho de pai militar, aluno do colégio militar, as aulas foram no ginásio do colégio, e ele abriu as janelas para um mundo que eu nunca suspeitara existir, o teatro, New York, ele exibiu vídeos de montagens do Ornitorrinco no lindo prédio dos bombeiros que fica ao lado do cemitério, lançou o Vorazcidade e fez uma dedicatória que se tornou o lema da minha vida “nunca perca o interesse pela arte”, de fato, nunca perdi e nunca o esqueci, nem assimilei completamente sua perda, mas o presente que ele me deu deu sentido à minha vida.

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